segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

2012 está aí...

Bom, tanto se fala sobre o fim do mundo em 2012, certo? Não acredito nele na forma que a maioria acredita, mas sim de uma maneira mais transformadora, renovadora, e não destruidora. Não creio que haverá uma série de eventos naturais bizarros que dizimará nossa vida aqui, como houve com os dinossauros, por exemplo. Penso no “fim do mundo” mais como “fim do mundo como o vivemos/entendemos hoje”. Sendo assim, vou ser direto sobre o que acho que vai acontecer em 2012. Vamos lá.

- O líder coreano foi morto pelo próprio filho (ou pessoas próximas a ele) para que este assumisse o poder. Ele é mais bélico, mais jovem e, portanto mais irresponsável e manipulável. Ele vai, sim, liderar o caos no oriente;

- Os EUA retiraram as tropas do Iraque e parte delas do Afeganistão não porque são bonzinhos ou porque Obama quis cumprir promessa de campanha, mas sim para reagrupar e dar suporte a Israel na futura e iminente invasão ao Irã. O motivo? Naquela região nem precisa de mais motivos, mas esses testes de míssil que estão sendo feitos são uma grande desculpa. Além disso, a promessa de Teerã de fechar o Estreito de Ormuz caso os embargos continuem (e continuam), ajuda muito. Isso sem falar nas usinas nucleares de Ahmadinejad... Lembre-se, ainda, que os EUA acabaram de dar 250 milhões de dólares pra Israel investir em "segurança";

- Na invasão ao Irã a Coreia vai entrar na guerra, mas não sem antes detonar a Coreia do Sul. Lembre-se que a China é aliada da Coreia do norte, ou seja, o maior exército do mundo está com eles. E se a China lutar a favor de alguém, o Japão luta contra...;

- A Europa e os "aliados" vão vencer essa guerra, mas o mundo ficará destruído, exceto o hemisfério sul, exatamente como na segunda guerra, mas veja que temos agora uma nação muito forte economicamente. E lideraremos a virada do mundo. Isso, nós mesmos, o Brasil.

Isso é só o início, pois os políticos daqui ainda são muito ruins, mas é assim que começa... As futuras gerações serão melhores.

O Brasil é um país muito religioso, talvez o mais religioso do mundo, onde há a concentração de todas as raças e credos, o berço perfeito para o início da regeneração do planeta. Acreditem: seremos a maior nação do mundo em alguns anos.

Acho que o mundo será economicamente diferente do que foi em qualquer momento da história da humanidade. Não haverá riqueza soberba, até porque não haverá mais recursos naturais para isso. Os povos serão mais iguais e, consequentemente, mais unidos. Tudo deverá ser reconstruído, e nossos filhos e netos serão os responsáveis por isso.

Não podemos esquecer também que agora os homens têm o "apoio" da natureza nessa empreitada de “refazer” o mundo. Ela, a natureza, deve estar cansada de apanhar, não é? Muitas nações vão sucumbir ao seu poder, que vai trazer a colheita para aqueles que plantaram destruição por todos esses anos...

Bom, isso é o resumo do que acho. Quer saber mais? Leia os quatro evangelhos do Novo Testamento sob a ótica do Espiritismo codificado por Alan Kardec – além de alguns outros livros da Doutrina sobre o tema – e reflita sobre o que acontece ao seu redor no mundo neste momento. Você vai ver que a hora está chegando. E lembre-se do que Jesus falou: a porta é estreita...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Ela disse adeus...

A vida nos apronta cada uma, viu? Tenho certeza que tudo que o Cosmo quer é provar que, por mais que tentemos negar e repudiar a ideia, nada, absolutamente nada, está sob nosso controle. Pra que as coisas aconteçam, basta que o relógio esteja batendo. E ele sempre está.

Nos últimos anos eu passei por um monte de situações um tanto quanto pitorescas: meu pai morreu; uma árvore escolheu aleatoriamente o carro do meu fantástico primo para esmagar e nos privar para sempre de sua companhia física; minha tia avó, fofa até dizer chega, dormiu bem e quando acordou já não estava mais lá; minha avó, de um dia pro outro, esqueceu de tudo e de todos por causa de uma maldita doença com nome de campo de concentração alemão; saí de casa bem e voltei sabendo que tinha 30% de chances de morrer; abri a página web do jornal e vi que Michael Jackson e Steve Jobs haviam morrido; e, pra concluir, fui acordado com a notícia de que minha duplamente madrinha – batismo e casamento – havia sido internada por um infarto e estava em estado grave no hospital. Depois de tantas notícias, de tantos buracos abertos nos últimos anos, estava ruim de acreditar que aí viria mais um. Mas o Cosmo, sempre ele, provando mais uma vez de quem é o controle, começou a desenhar o inevitável...

Foram vários – cinco, para ser mais preciso – dias de uma agonia sem fim. Nem vale a pena relatar toda a luta, todos os momentos tensos que todos passaram em casa e/ou no hospital. Quero só falar um pouco de quem era, pra mim, a pessoa que nos deixou.

Regina Coeli, a rainha do céu, mãe de quatro filhos: Sandro, Glaucio, Leandro e Paula (estes dois últimos postiços, mas quem liga?). Uma pessoa que nunca ficou triste, que sempre sorriu e passou por cima de todas as dificuldades e turbulências de sua vida com uma facilidade que beirava a loucura, de tão simples. Os gaúchos têm uma expressão interessante que a definia bem: “louco de tão tranqüilo”. Era assim que ela ficava nas horas de aperto. E o melhor era que trazia todo mundo com ela. Até pra nos deixar foi assim. Entrou andando no hospital, ficou lá por cinco longos dias, esperou que todos estivessem mais preparados, calmamente se despediu de todos, e se foi. Foi para um lugar muito melhor, onde terá o gozo que merece depois de tanto tempo de lutas neste mundo.

Sabe, é difícil falar dela, porque era minha madrinha, minha tia e uma segunda mãe. Passei minha adolescência na casa dela. Foi lá que aprendi a tocar guitarra, foi lá que fiz a minha primeira banda e conheci minha primeira grande paixão. Foi na casa dela que decidi que ia ser veterinário como ela, mas também foi lá que desisti de ser, ao ver que não tinha condições de sair ileso de uma eutanásia de um filhotinho com cinomose. Era ela a única mentirosa que vivia me dizendo que eu cantava muito bem e que eu deveria fazê-lo mais vezes. Quem vai me dizer isso agora? Era ela a sem noção que não tinha vergonha de falar das bandas dos filhos dela pra quem quer que fosse e tinha um orgulho que eu nunca vi igual de sua prole de músicos. Como curtia e apoiava nossos sonhos, cara... Sem precedentes em nossas vidas. E agora, como fica? Quem vai nos dizer que temos que tocar e acreditar nisso? Já era difícil com ela, imagine agora.

Foi-se uma grande mulher, uma grande guerreira, uma grande mãe, uma grande amiga. Mas se foi porque era boa demais pra este mundo cão. Deixa um imenso buraco, que demorará a fechar, mas que servirá de estímulo para melhorarmos nossas vidas, as pessoas que somos e como somos com os outros. Foi para reinar no céu, como seu nome dizia, para nos ajudar lá de cima, junto de tantos outros familiares sensacionais que nos deixaram e que de lá nos ajudam a viver aqui, nessa terra ingrata e injusta. Foi a Regina, ficou a saudade. A primeira foi tão grande que deixou a última ainda maior do que ela. É o ciclo da vida. O doloroso e cruel ciclo da vida.

Vai com Deus, Dinda. Fica com Ele, na verdade. E ajuda o povo aí de cima a ajudar o povo aqui de baixo, porque está cada vez mais difícil, já que pessoas como você insistem em nos deixar. Se com você, meu pai, Diogo, tia Leila e tantos outros já era difícil, imagina sem... Vai e brilha pra que a gente possa te ver daqui. E desculpa não ter conseguido entrar na UTI pra te dizer adeus. Isso vai doer por um tempo em mim ainda... Mas tenha sempre a certeza de que nossa mania de você não acabará jamais. Beijo do teu sobrinho e afilhado, Lê.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Atrás da porta

Muita coisa acontece ou pode acontecer em um ano. O mais legal - e raro - é quando um ano inteiro passa e tudo que nele acontece se baseia, deriva ou depende de um único fato ocorrido no dia exato de seu começo. Foi assim comigo nos últimos 365 dias.

Em dezesseis de dezembro de dois mil e oito aconteceu o renascimento de alguém que, olhando para trás a partir de hoje, precisava, e muito, renascer: eu.

O ano que se iniciou nesta data e que completa seu primeiro aniversário hoje foi dedicado a muita reflexão, gratidão, análise e tudo o mais que possa fazer uma pessoa olhar para si mesmo através do olhar para o Alto. Passei os últimos doze meses em completa clausura dentro de mim, o casulo mais seguro e protegido que há. Só eu tenho acesso total a ele. Devido a isso, pude me conhecer ainda mais e ver o quanto precisava mesmo ter mudado para que, enfim, eu pudesse achar o caminho correto, o caminho de elevação espiritual, o caminho de luz, de Deus. Há ainda muito a mudar, evoluir e crescer, mas este primeiro ano foi aquele onde me dei conta disso, exatamente como um bebê que vai, aos poucos, percebendo que precisa de muito ainda para conseguir se comunicar e existir no mundo onde foi inserido. Em um post anterior eu falei sobre isso, sobre o que mudou. E há ainda muito mais a falar, o que farei gradualmente em situação futura.
E por que este ano foi tão importante? O que aconteceu no dia dezesseis de dezembro de dois mil e oito que marca um novo começo, um renascimento? Foi neste dia que fiz meu PET/CT, o exame que disse: seu corpo está limpo, não há mais células cancerígenas dentro dele.

Vou tentar descrever um pouquinho do que foi aquele dia pra mim, a começar pelas quarenta e oito horas que o precederam.

Dois dias antes de fazer o exame é iniciado o preparo. Uma dieta rigorosa é imposta ao paciente para que haja corte quase total da ingestão de glicose. As células cancerígenas processam esta substância de maneira diferente, e todo o exame se baseia nisso. Continuando... Foram dois dias de muita, muita fome. Só podia comer em horas certas e alimentos e quantidades predeterminados. Era salada, queijo minas, uma fatia de pão, coisas assim. Acho que foi a alimentação que mais me fez ver que estava doente durante todo aquele ano... Quem me conhece sabe como gosto de comer e pode imaginar o que foram esses dois dias pra mim e para o meu estômago. Coitados de nós... De ponto positivo, relembrou a meu paladar o gosto delicioso das saladas. O problema não é comê-las, mas só poder comê-las. Pra alguém com minha altura e peso isso não é nada fácil.

No dia marcado para o exame o clima estava esquisito em São Paulo. Uma chuva chata caía sobre a cidade. Diz-se por aí que quando chove em um dia de evento especial, significa boa sorte. Pra mim, pelo menos nesse dia, funcionou.

Acordamos cedo, eu, minha mãe, minha mulher e minha irmã e fomos para o HCor, um dos melhores do Brasil e de São Paulo. Eu, como sempre, rindo e descontraído, as demais tentavam disfarçar o nervosismo. Eu, juro, não estava nervoso. Estava ansioso, é diferente. Queria saber como seria todo aquele dia. A resposta eu já tinha dentro de mim e não me permitia duvidar dela. A quimioterapia já havia me esgotado. Eu tinha feito dezesseis aplicações e as quatro últimas foram as piores. Era muito desgastante e eu atingira meu limite. Havia um mês que não passava mais por aquilo, mas uma resposta negativa nesse exame me levaria a lugares bem piores do que as últimas semanas haviam sido. Além da fé e das já mencionadas vozes, o cansaço e o medo ajudavam a ter certeza do diagnóstico que viria.

Chegando ao hospital, fiz o check in e esperei ser chamado. Não havia mais nada a fazer a não ser esperar mesmo. Já havia recebido as aplicações de quimioterapia, a dieta preparatória e nada mais tinha a fazer a não ser esperar pra ver se tudo isso tinha obtido o efeito esperado. Com um pouco de atraso, a enfermeira me chamou. Sabe, não esqueço os olhos das minhas doces acompanhantes. A esperança que eles carregavam e o medo que a acompanhava me deram, também, medo. “E se não acontecer como elas esperam?”, pensei. Por mais que tivesse certezas dentro de mim, não podia decepcioná-las mais uma vez. Pela primeira vez naquela semana eu me abalei, mas ainda assim entrei confiante. Esqueci até da fome que sentia...

Lá dentro, na área de preparação para o exame, eu conversei longamente com a enfermeira, que me informou que o tempo total até eu sair do exame era aproximadamente de duas horas, a partir daquele instante. Pedi que ela avisasse minha família, pois elas morreriam de fome se fossem me esperar acabar pra só então comer. Ela o fez. Foi bom porque elas puderam sair, comer e passear pela Av. Paulista. Até compraram um Tyrone pro meu sobrinho. Ele diz que o tio Leandro deu pra ele, mas não foi, foi a tia Yviana...

Bom, lá dentro eu me preparava para o exame, física e psicologicamente. Desde que cruzara aquela porta restrita minha mente entrou em prece e comunhão com o Alto. Eu só queria que tudo desse certo, que aquele dia fosse a minha própria tomada de Orleans prometida pelas vozes. E foi...

Troquei de roupa e me vesti com aqueles trajes estranhos de exames de tomografia e afins. Parece que vão arrancar seu rim ou te implantar um chip de monitoração alienígena. Mas era necessário, então pus. Fiquei um tempo sentado em uma cadeira esperando uma enfermeira para fazer o preparo da veia e tal. Acesso que chamam isso, não é? Lembrei da minha mulher que sempre desmaia quando vê fazerem isso em alguém. Aliás, quando for escrever sobre os fatos curiosos da minha doença, ela aparece desmaiando e atrasando minha biópsia. Foi engraçado nesse dia...

Depois de preparado, uma outra enfermeira me levou para um quarto isolado com uma maca, uma pequena TV e frio, muito frio. Como eu tenho termostato interno de pinguim, ótimo. Deitei na maca e ela me injetou uma quantidade absurda de glicose por uma seringa gorda como nunca tinha visto. Ela disse: “Não faça esforço, nem mesmo contraia os músculos pra não gastar a glicose. Se estiver com frio avisa para diminuir o ar. Toda a glicose tem que estar disponível pro exame. Nem mesmo coloque os braços sobre a cabeça para não fazer qualquer tipo de esforço”. Lembro de pensar “p..., que exame sinistro. Depois disso, tem que dar certo”. Ela também falou que eu ia ter que tomar um copo de água com contraste a cada dez minutos. Problema algum até o terceiro, no sétimo você já começa a sentir saudades da quimioterapia. O oitavo só Deus sabe como desce...

Deitado na cama, relaxando ao máximo, continuava com meu papo astral e ia ficando cada vez mais tranquilo. A TV em frente a mim ficava reproduzindo imagens de paisagens lindíssimas, animais silvestres, etc. Lembro que falei bem baixinho “e tem gente que ainda precisa de provas pra crer em Deus”. Ficava ali, cheio de fome, tentando abstrair os roncos do meu estômago, concentrado no que estava fazendo. A cada dez minutos eu era interrompido pelo bendito copo d’água, mas conseguia bater um papo legal com o Alto, além, é claro, de falar comigo mesmo, de fazer uma retrospectiva dos últimos meses.

E foi essa retrospectiva que, finalmente, me levou a um clima mais introspectivo ainda. Parecia que só ali caía a ficha da importância do exame. Não foi bem isso que aconteceu, pois eu já sabia da gravidade daquilo, mas parece que o botão de boost foi apertado e a simbiose com meu espírito se fez completa. É estranho lembrar. Tenho as imagens ainda claras de como fiquei diferente. Revendo as cenas em minha cabeça hoje eu me sinto maior, mais alto, forte e velho. Minha imagem que aparece na tela mental é outra, como se fosse uma versão mais velha de mim mesmo. Fiquei mais sério, concentrado e pronto pra o que estava por vir do que em qualquer outro momento.

Depois de ser ajudado pela enfermeira – lembra que eu não podia fazer qualquer esforço? –, levantei e fui, então, para a sala de exame. Olhei para a máquina e pensei “então é você quem diz se tudo funcionou...”. Deitei na posição correta e esperei o médico chegar, o que logo aconteceu. Ele era um homem já grisalho, simpático e espirituoso, como deve ser alguém que lida com pacientes que estão normalmente em estado emocional muito sensível. Ele me perguntou sobre o contraste venoso e eu disse que tinha alergia, pedi que ele ligasse pra minha médica, pois ela saberia se valeria à pena correr o risco em prol do resultado. Ele saiu e vi quando falou com ela ao telefone, sempre sorrindo. Logo ele voltou e disse que o ganho na legibilidade não era tão grande assim que justificasse o uso do contraste. “vamos sem ele, então”, ele disse. Lembro que ele falou algumas palavras de incentivo pra mim, só não consigo lembrar quais foram. A esta altura eu já estava completamente imerso no meu próprio eu, na minha ligação com o Alto e pouco sentia do que acontecia ali. Minha concentração e sensibilidade com o entorno etéreo eram muito maiores do que com o que se pode ver com os olhos da carne. Depois disso a enfermeira e o médico se retiraram e fecharam a porta. O exame ia começar...

Durante o exame – que durou cerca de noventa minutos – pensei em milhões de coisas. Eu orava, desviava a mente pra coisas fúteis, pensava nas músicas do meu disco, orava mais um pouco, enfim, pensava em qualquer coisa que mantivesse o tempo passando. A fome que eu sentia a essa altura é inimaginável. Os dois últimos dias foram de alimentação mínima, o exame requer um jejum longo e eu esperara muito além da hora prevista, pois houve um atraso nos pacientes anteriores. Eu estava, definitivamente, com muita fome. Em dado instante, devido à posição que me encontrava na máquina, comecei a sentir dores em várias partes do corpo, mas não podia me mexer. Eu tinha que resistir. Foi aí que recuperei a concentração que nunca deveria ter perdido e voltei a ficar imerso no meu próprio espírito. Voltei a ter o controle total de mim mesmo ao ponto de fazer a dor passar. A concentração era tanta, a imersão era tão profunda, a oração tão intensa que algo extraordinário aconteceu.

Meus braços estavam esticados ao lado de minha cabeça, espremidos no tubo da máquina. Eu sentia muito incômodo, muito mesmo. Eu orava, de olhos fechados, pedia muita ajuda até que, em dado momento, vi, claramente, meu pai em pé ao lado da máquina, atrás de mim, segurando minhas mãos entre as suas. Nunca, nunca vou esquecer isso. A coisa durou cerca de um segundo, mas foi o suficiente para mim. Você pode perguntar como eu consegui ver, de olhos fechado, alguém que estava atrás de mim. A alma vê, meu amigo, não só os olhos veem. E foi assim, com a alma, que vi meu pai ali, segurando minha mão em uma hora tão importante...

A partir deste momento tudo ficou mais fácil e o exame terminou sem que eu sentisse mais nada. A porta se abriu e a enfermeira entrou para me ajudar a sair da máquina e da sala. Logo depois de passar pela porta eu encontrei o médico, que vinha com o indelével sorriso no rosto. Eu pensei “deve ter coisa boa pra falar. Se bem que ele não parou de sorrir desde que o vi, pode ser qualquer coisa”. Aí ele veio e me estendeu a mão. Antes de cumprimentá-lo eu perguntei sobre o que ele tinha visto, como tinha sido e tal. Só então apertei sua mão. A resposta dele foi “pelo que vi, tudo limpo. Não vi nada de anormal em qualquer lugar. Vou realizar uma análise mais profunda, mas, a princípio, tudo limpo”. Quem me conhece sabe que sou um cara meu seco, um pouco iceman para certas coisas. Neste caso não foi diferente. Sorri para ele – com os olhos também, o que, no meu caso, é muito raro –, apertei um pouco mais sua mão e disse obrigado. Ele me pediu para esperar um pouco ali, pois olharia atentamente os cortes do exame para ver se estavam nítidos o suficiente para a análise mais aprofundada que ele teria que fazer. Se não estivessem, eu teria que voltar para a máquina, caso contrário estaria liberado. A enfermeira ficou responsável por me avisar. Fui até a cadeira aguardar. A mesma cadeira onde fiquei aguardando para ser chamado; a mesma onde fora feito o acesso. A enfermeira sorria mais do que eu. Devem ter achado que eu era louco. A maioria das pessoas, no meu lugar, explodiria de felicidade e tal. Eu só me limitei a sorrir.

Sentado na cadeira eu olhei em volta por alguns segundos. Os pacientes que estavam ali pareciam, todos, em situação mais grave. Tinha um idoso em estado bem delicado, uma mulher com aparência bem triste. Eu continuava ali, sentado, imóvel e sem pensar em absolutamente nada. Poucas vezes em minha vida me senti assim, com a mente tão vazia. Bastou, porém, piscar os olhos para a mente se encher. Parecia que este ato abria as comportas dos pensamentos represados. Juro que achei que ia morrer. Dizem por aí que no nosso último suspiro vemos toda a nossa vida na nossa frente, não dizem? Foi assim comigo: vi minha vida toda em segundos. Mas não era porque estava morrendo. Pelo menos não como entendemos a morte. Eu era, sim, um moribundo, mas que reencarnava naquele mesmo instante. Minha consciência trocava de corpo, ou melhor, meu corpo trocava de consciência. Eu morria e renascia no mesmo momento. Uma nova piscada de olhos fez o filme parar e os pensamentos se organizarem. Lembrei de meu pai segurando minha mão, de minha família do lado de fora me aguardando, das palavras do médico: “tudo limpo”. Lembrei disso e, como todo recém nascido, chorei. Não aos prantos, mas uma sutil e discreta lágrima correu pelos meus olhos, jocosamente acompanhada de um largo sorriso. Eu costumo dizer que os bebês choram quando nascem em sinal de protesto por vir a este mundo. Ironicamente, eu chorei em sinal de gratidão por receber a chance de continuar mais um pouco nele. Gratidão por estar vivo, por não submeter minha mãe e minha irmã a duas perdas consecutivas, por ter vencido a batalha, por ter a certeza de que todas as certezas que tinha ao longo do processo eram reais, por ter a chance de viver aquele momento e tantos outros que sofreram da mesma doença não e, mais ainda, por ter a certeza de que meu pai estivera ali. Sinto falta dele, mas, ironicamente, durante todo o tratamento eu sentia pouco sua ausência. Seu exemplo era tão vivo em mim, era a única coisa que me guiava para suportar as sessões de quimioterapia e tudo que vinha com elas, que para mim ele parecia mais vivo do que nunca. Era como se ele estivesse ali o tempo todo, me lembrando de como encarou seu câncer e me ensinando como eu deveria encarar o meu. Quando, naquele momento, percebi que tudo se acabava, tive a certeza do inexorável: ele não estava mesmo entre os encarnados neste mundo. Mas isso não importa, pois ele estava presente ali, e disso eu tinha certeza. DaVinci dizia que “para estar junto não é preciso estar perto, mas sim do lado de dentro”. Estou junto dele e ele de mim, tenho certeza disso.

Não demorou muito para que a enfermeira viesse me avisar que o médico confirmara que estava tudo ok e eu podia ir embora. Deste momento até a saída pela porta restrita eu pensava somente em uma coisa: como ia falar o resultado pra minha família? Fiz ao meu melhor estilo: falando.

Troquei de roupa e saí pela porta e, se a TV da sala não estivesse ligada, teria ouvido os três coraçõezinhos batendo a mil ao me verem surgir ali. Um quase uníssono “e aí?” me recebeu. Eu, com a cara mais normal do mundo, como se tivesse feito um simples hemograma, respondi somente um “tudo bem”. “Como assim, tudo bem? O que ele falou?”. Minha mãe parecia que ia explodir. Era engraçado. Decidi acabar com o drama e dei a elas o que elas queriam ouvir: “Está tudo limpo”. “Como assim tudo limpo?”. “Tudo limpo. Ele disse que não achou células cancerígenas em lugar nenhum”. Um breve silêncio de menos de um segundo e um sorriso no rosto de uma pessoa que aguardava alguém sair com a mesma notícia foi tudo que pude perceber ali até o uníssono “graças a Deus”. Alguns abraços e sorrisos e eu, muito sensível, quebrando o clima: “estou com fome”. Fomos à lanchonete do hospital pra eu gastar meu vale lanche, afinal de contas o exame era muito caro e o plano de saúde não cobria. O mínimo que poderiam me dar era um vale lanche. Todo mundo conversava como se a contagem de plaquetas estivesse normal, era engraçado o pacto de play it cool implícito que havia ali. Chegamos na lanchonete, peguei meu lanche fuleiro – mas que me manteria em pé e vivo até chegarmos ao shopping para um almoço de verdade – e fomos para uma mesa. Era todo mundo querendo ver quem ia explodir primeiro, até que minha mãe pediu para eu repetir o que o médico disse. Eu repeti e aí o primeiro dominó caiu. E você sabe que quando o primeiro dominó cai, todos caem junto. Minha irmã começou a chorar e aí as outras Marias foram atrás dela. Me emocionei com a emoção delas, mas segurei a onda e comi meu pão sem graça evitando falar. Se falasse, iria na onda delas. Lágrimas secadas, fui pagar o bendito exame e fomos embora almoçar.

Enfim, foi assim aquele dia que hoje celebra um ano. Tenho esta data como um segundo aniversário, uma data tão importante quanto o quatro de março. Talvez não tão importante pelo resultado em si, mas pelas reflexões e consequentes transformações que ele trouxe. Fico grato e feliz de ter podido viver isso tudo. Espero não decepcionar aqueles que me deram essa missão. Espero estar sabendo colher os frutos da semeadura que fui forçado a fazer.

Hoje é um dia especial. Tão especial que me fez abrir a porta restrita que eu achava que nunca ia abrir: a porta daquele PET/CT e a porta das minhas recordações. As portas estão abertas agora, pode entrar.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O que mudou?

Quando descobri oficialmente que estava com câncer, a primeira coisa que pensei foi: “E minha mãe? E minha irmã?”. Digo “oficialmente”, pois dentro de mim eu já sabia há um tempo até mesmo a época em que tudo ia acabar. Mas isso é outro papo, outra história. O assunto de hoje é outro.

Meu pai tinha morrido há menos de quatro anos e lá estava eu levando minha família para mais uma montanha russa das mais diversas emoções. Só conseguia pensar nisso. É óbvio que pensava na minha mulher, nos meus amigos, etc., mas somente minha mãe e minha irmã sabiam do que eu estava falando: os quase oito anos de doença do meu pai que não terminaram da maneira que queríamos. Enfim, parece mentira, mas meu estado de saúde era a última coisa que me preocupava naquele momento. Eu tinha certeza que ficaria tudo bem. Dentro de mim eu sentia a força mais incrível que pode existir, era como se eu fosse uma espécie de Joana D’Arc da minha própria França. As vozes que me guiavam iriam me libertar. Graças a Deus eu também tinha a certeza de que não seria liberto da maneira que ela foi... Mas isso eu conto em outras oportunidades.

Uma vez que eu tinha a mais absoluta confiança de que tudo ficaria bem, só me restava uma coisa a fazer: mostrar isso para todo o resto. Convencer as pessoas ao redor de que o que eu sabia não era delírio, animismo, fanatismo ou qualquer coisa do tipo, mas sim uma certeza que vinha do Alto. O tempo foi passando e ia ficando cada vez mais claro que eu falhava nessa tarefa...

A doença foi um grande modificador na minha vida em todos os aspectos. Muda-se 180º após algo assim, é claro. Coisas que antes não valiam nada passam a ser super importantes, e vice-versa. As coisas do Espírito, que sempre me foram muito importantes, ganham ainda mais peso. A certeza de que cada momento só dura um piscar de olhos e que no instante seguinte tudo volta a ficar fora do seu controle é imensa após quase ver a “luz branca”. O problema é convencer as pessoas disso, principalmente durante o processo. Depois que tudo passa, com tempo para analisar as coisas com calma, às vezes acontece de aprenderem tanto quanto você, mas nem sempre é assim, principalmente “durante o vôo”. E é isso que percebo nitidamente hoje: apesar de me transformar, a doença veio para transformar um grande número de pessoas que participavam dela direta ou indiretamente. Eu sempre disse isso aos mais próximos: “Deus me usa como instrumento para a transformação de um grupo de pessoas, e só posso Lhe agradecer pela oportunidade e benção de ficar doente”. Era tido como fanático. Tudo bem, presto contas somente a Ele, não ligo para o que falam. Ligo, sim, se tiver passado um ano inteiro vomitando, sentindo dores, cheio de privações “em vão”. A você, então, que passou tudo comigo, seja lá qual tenha sido seu grau de proximidade, uma pergunta: o que você aprendeu?

Eu aprendi que a vida dura o quanto Deus quiser que ela dure e que se a valorizarmos como deve ser valorizada ela pode durar muito tempo; aprendi que o que não está sob nosso controle não deve nos causar inquietação, pois foi pra isso que um homem morreu pregado há 2000 anos: pra nos ensinar a ter fé; aprendi que viver com o suficiente é mais do que suficiente e que a vida deve ser aproveitada ao máximo, pois nunca se sabe quando ela pode acabar. Aprendi mais um montão de outras coisas, mas estas são as mais importantes. Eu acho...

Viver fica diferente depois que se escapa de uma dessas, quem escapou sabe do que estou falando. Tudo muda de contexto e o foco que se dá às coisas muda completamente. Os objetivos traçados antes não são necessariamente mais os mesmos traçados depois. As coisas das quais gostávamos antes não são mais as mesmas, e o mesmo ocorre com as que não gostávamos. Tudo muda, o mundo muda, o interior muda, o destino muda. Em mim só não mudou uma coisa: a preocupação com o dever cumprido. Se minha doença foi para modificar os que estavam ao meu redor, pergunto: consegui? Ou melhor, Deus conseguiu através de mim? Se sim, ótimo, se não, só lamento. Eu mudei e sei pra onde vou, e você?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O mundo sem Michael Jackson

Alguns dias já se passaram desde a morte de Michael Jackson e só agora criei coragem para escrever um pouco sobre o assunto. Na verdade, foi mais incapacidade de fazê-lo antes do que qualquer outra coisa. Não é fácil processar com clareza o que aconteceu. Não é nada fácil para mim – um músico – dimensionar o impacto deste episódio trágico na história da música mundial. Precisei de um pouco de tempo. É bem verdade que, por mais tempo que se tenha, isso é algo impossível de se fazer com o mínimo de precisão. Somente o passar dos anos vai mostrar o que realmente foi o já saudoso Rei do Pop. Digo “o que” e não “quem”, porque Michael Jackson foi muito mais do que um simples homem, um simples cantor, um simples artista. Michael transcendeu a tudo isso e se tornou uma instituição, uma marca, um mito, uma lenda, um imenso personagem do folclore mundial. Se a música pop – principalmente a negra – é feita hoje da maneira que é, deve-se muito, ou quase tudo, a ele; se o mercado multimídia vinculado à música é hoje essa máquina poderosa, deve-se também a Michael Jackson. O mesmo ocorre com as apresentações ao vivo, que ganharam novo significado e importância desde que ele decidiu fazer de seus shows verdadeiras performances que até mesmo a própria Broadway invejaria.

Michael mudou o mundo, e não apenas o musical. Ele foi inspiração para a sociedade mundial – principalmente a americana, é claro – mostrando que é possível vencer, mesmo quando tudo diz que não. Foi um homem perturbado pela infância traumática que tivera, personificada na figura satânica de seu pai, ainda hoje um homem indiferente a tudo que acontece, exceto àquilo que lhe diz respeito. Não deve ter sido fácil ser Michael Jackson em uma família como aquela. Mesmo assim ele chegou lá. Pagou um preço muito alto por isso, é verdade, mas chegou lá.

A fortuna de Michael nunca pareceu significar algo para ele. A felicidade era o que ele realmente buscava. Queria de volta a infância perdida ao longo do caminho, aqueles momentos que todos sabemos que não voltam mais e que ele sempre deixou claro não aceitar perder, não querer ver que haviam partido para sempre. Tudo o que o grande Rei não queria era sua majestade, a não ser que isso lhe pudesse trazer a vida que nunca tivera. E foi assim que ele se meteu em escândalos e falência. Foi em busca daquilo que nunca tivera que construiu sua própria Terra do Nunca, já que era impossível encontrar a já famosa e eternizada por J. M. Barrie. Sua busca desesperada pela paz de espírito só lhe trazia ainda mais conflitos, dor e desesperança. O homem sucumbia ao artista, pois este matava cada vez mais rapidamente aquele. O trauma estético que trazia consigo desde a infância lhe transformou em um homem sem rosto, deformado e irreconhecível; a busca desesperada pela alegria e felicidade tirou o sorriso de seu rosto; sua fortuna incalculável o levou à falência. Michael foi o único homem que conheci que gastava todo seu dinheiro de forma impensada e irresponsável sem que isso parecesse arrogante. Ao contrário, seu luxo era fruto de sua humildade. Como disse antes, ele só queria achar aquilo que não tinha. O que tinha não significava nada para ele. Para ele, seu dinheiro era apenas o mecanismo para buscar aquilo que o dinheiro não compra. E nesse mar de ironias viveu a maior estrela da música pop que este mundo já viu e que, certamente, jamais verá novamente.

O que Michael Jackson deixa para o mundo não é palpável. Alguns dirão que ficam os escândalos, outros, que são as canções, alguns, que são os videoclipes. Eu prefiro pensar que ele deixará muito mais do que apenas isso. É óbvio que sua obra viverá para sempre, mas acima disso existe o espírito de Michael. E não me refiro ao espírito pensante, a alma do homem, mas ao espírito do artista. Aquele que é maior do que o do homem, que trazia dentro de si uma genialidade ímpar, mesmo em uma mente tão atormentada por fantasmas de uma infância e juventude sofridas. O espírito de Michael Jackson sempre pairará sobre as cabeças dos artistas de todo o mundo, principalmente daqueles que, como eu, se alimentam de música. Sempre que um novo videoclipe for feito, lá estará ele. Quando um álbum tiver uma super produção, arranjos inovadores e vanguardistas ao mesmo tempo, mais uma vez lá estará o grande espírito do maior dos reis que o mundo já conheceu. E assim será. Sempre. A cada fogo de artifício estourado em um palco ou coreografia milimetricamente ensaiada, o espírito viverá e se alegrará por ver ali sua inspiração, sua criação.

Michael Jackson é um ser que sobreviverá ao tempo, à história, ao desgaste natural que o passar dos anos traz às coisas. Como ele só há Elvis e Beatles, mais ninguém. Nunca vou esquecer o momento em que abri o site do Los Angeles Times e vi a manchete acima de uma foto do Rei em ação em um de seus shows: Michael Jackson is dead. Só então pude entender o que meu pai sentiu quando soube das mortes de John Lenon e Elvis. Sempre imaginei o quanto seria ruim passar por aquilo, mas com Michael eu vivi essa sensação. O mais bizarro é o fato de eu não ser seu fã, acredite. Gosto muito de suas músicas – não de todas, claro – mas não ouso me considerar um fã. Sou fã do Pink Floyd e do Joe Satriani, de Michael Jackson era apenas um admirador. Mas, como disse, Michael era mais do que um homem, mais do que um artista, ele era uma máquina, uma empresa, uma indústria do entretenimento. Era tudo aquilo que alguém sonha ser em qualquer área profissional que atue: ele era o melhor no que fazia, e isso não se discute, se respeita. Michael Jackson era o homem a ser batido: era o que melhor dançava, o que fazia os clipes mais legais, o que inspirava, o que criava, o que mais causava amor e também o que mais causava repulsa; era o mais polêmico, o mais inovador e o mais famoso. E foi por tudo isso que eu senti sua morte de uma maneira que nunca pensei que sentiria. Fica um vazio. Foi-se o último grande gênio do mercado do entretenimento artístico-musical. Em seu lugar não fica ninguém, pois não há um príncipe herdeiro capaz de viver em tamanha magnitude artística e pessoal. O imenso respeito que sempre tive ao gênio inventor do já eternizado passo moonwalker tornou-se ainda maior, pois normalmente damos ainda mais valor às coisas quando somos privados delas. E agora me dei conta que eu estou privado da genialidade de ninguém menos do que Michael Jackson. E isso é triste.

Neste momento, sem a presença do maior astro da música desde Elvis, sinto o vazio que ficou e, triste, não vejo esperanças de um mundo melhor na música pop. O grande inventor, o grande gênio se foi. Fica apenas a esperança de que seu espírito, que viverá entre nós através de sua obra, consiga nos fazer músicos e artistas melhores. E que possamos, também, encontrar dentro de nós a Neverland que Michael Jackson morreu tentando achar e que jamais conseguiu.

Vai com Deus, Michael. You were the one to make a better place. You rocked our world!!! E lembre-se sempre: you are not alone...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Aos amigos...

Olá!

Depois desse ano ímpar era óbvio que eu não ia poder passar este natal sem falar algumas palavras, digamos, especiais. Mas tão óbvio quanto isso era o fato de que eu não ia conseguir falar em viva voz. Sendo assim, apelei ao bom e velho estilo Leandro de ser: as cartas. Portanto, quando vocês estiverem lendo este texto, imaginem que estou dizendo diretamente para vocês.

Há muito, muito mesmo a ser dito depois de tanta coisa vivida em tão pouco tempo, mas por ora vou ser o mais direto e objetivo possível. Afinal, hoje é natal: dia de alegria, de celebrar o nascimento Daquele que veio para ser o nosso grande modelo, não para falar de mim. Deixemos isso pra depois, certo? Vamos falar agora de vocês...

Desde aquele dia em que oficialmente foi confirmado o que eu tinha, todos vocês se uniram física e espiritualmente ao meu redor para que a cura viesse, para que eu ficasse bom definitivamente. O curioso disso tudo é que sempre que eu rezava era pra que vocês tivessem força para passar por tudo da melhor forma possível, porque eu – como sempre, me achando o super-homem – achava que teria forças suficientes pra passar por isso numa boa. Achava. Só isso...

Lembro diariamente de uma das minhas passagens favoritas do Evangelho, onde Jesus pede a Deus, minutos antes de sua prisão, que seja afastado Dele aquele sofrimento que viria em seguida, mas que fosse feito como o Pai queria e não como Ele, Jesus, julgava mais pertinente.

Curioso como algumas coisas tão óbvias só ficam claras para alguns depois de muito tempo estampadas em sua cara. Se Jesus chorou, suou sangue e teve medo, por que eu poderia ter a arrogância de achar que comigo não seria assim?

Essa “ficha só caiu” depois do primeiro vômito, na segunda semana de quimioterapia. Quando vi, naquela quarta-feira, a minha parede suja daquele líquido laranja que foi mais forte do que eu e conseguiu sair, apesar da minha vontade, pensei: “é, cara, você não é mesmo o super-homem”. Você precisa de ajuda. E é aí que vocês entram...

A partir deste episódio, quando nem mesmo capaz de limpar o vômito eu fui – tive que chamar a tia Neide – eu tive a total certeza de que sem vocês provavelmente este dezembro não chegaria tão facilmente como chegou. Facilmente? Sim, facilmente. Uma das lições que aprendi neste tempo foi a observar o “cara do lado” e ver que o Monte das Oliveiras dele pode ser muito mais escuro e frio do que o meu. E ver mulheres sem seio, adolescentes de 17 anos morrendo, mulheres de meia idade definhando de magreza e fraqueza me faziam pensar que isso de fato acontecia, que o meu caso não era nada. Eu fui o único que conheci durante esse tempo – e o único paciente da minha médica em todo seu tempo de profissão – a não retardar nem por um dia o tratamento. Eu me sentia no direito de dizer que meu caso não era nada. Achava justo dizer pra minha mãe em várias oportunidades: “quem dera se todos os meus problemas fossem a doença”. Ela nunca pareceu entender... Eu entendo que ela não entenda agora... Mas mais tarde ela vai entender...

Enfim, eu achei que foi fácil. Pelo menos por comparação foi. O que aconteceu? Ganhei uns (muitos) quilinhos? Vomitei? Senti dores no corpo? Leiam algumas linhas acima que vocês vão ver que ainda estou no lucro... Mas por que foi fácil? Porque sou o super-homem? Não, isso eu finalmente vi que não o sou. Porque cada um de vocês estava ali. Só por isso. Já sei: vocês estão pensando que foi por causa de Deus, etc. Sim, mas Deus não faz nada sozinho... Nada. Isso foi outra coisa que aprendi. Até pra criar a mulher ele precisou da ajuda de Adão, assim como precisou de Jesus pra nos dizer claramente o que queria. E Este também precisou de doze homens pra realizar Suas obras. Da mesma forma eu precisei de cada um de vocês. Até mesmo pra limpar um simples vômito... Deus precisa de cada um de nós. E eu também precisei.

Precisei das caronas, das orações, das frases de apoio, dos sorrisos quando era óbvio que quando eu virava as costas havia as lágrimas. Do queijo minas aos papos sobre o Corinthians; das visitas do então mini me – hoje ele está a cara do pai, não parece mais comigo L – aos pratos de rabada. Até da tristeza, da ansiedade e do medo de cada um de vocês eu precisei do meu lado. Sem eles talvez eu não tivesse me esforçado tanto para conseguir – e sei que consegui – manter a calma, a fé e a mente em paz pra que o corpo assim também estivesse. E esse esforço não foi por mim. Foi por cada um de vocês. Era o mínimo que eu podia fazer para retribuir: mostrar que o esforço de cada um não era em vão. E mostrar também que meu pai não morreu em vão... Que pelo menos isso eu havia aprendido com ele, já que tantas outras coisas eu deixei passar.

Agora que tudo se passou eu pude, pela primeira vez desde um pouco antes aquele 6 de março, deixar a primeira lágrima cair. Quando o médico me disse, com um sorriso largo no rosto, que o exame estava limpo só deu tempo de eu sair da sala e sentar sozinho naquela cadeira pra esperar ser liberado. Ali caíram as únicas duas lágrimas desde que soube, antes de todo mundo, antes mesmo de pegar o resultado da biópsia (mais tarde vocês também vão entender isso) o que eu tinha. O mais legal foi voltar pra sala de espera com cara de indiferença... hehe... Mas dar a notícia foi muito, muito bom...

O curioso é que no dia 4 de março é meu aniversário e o do meu pai é dia 6, dois dias depois. Durante anos comemoramos juntos e em 2008, depois de 3 anos sem assim o fazer, isso aconteceu outra vez. Sozinho no metrô, indo da Av. Paulista para a Barra Funda falar pela primeira vez com a médica, eu conversava mentalmente com ele: “Estamos comemorando a notícia, não é? Um presente mútuo depois de tanto tempo. Uma oportunidade de crescer como essa não acontece duas vezes na vida da gente...”. E cresci. Cresci muito. Mais em um ano do que até então em 30. Imagino agora como meu pai não ficou espiritualmente imenso depois de sete anos de uma barra muito, mas muito mais pesada do que a que eu passei... Mas só consegui porque tinham vocês, os grandes anjos encarnados, ao meu lado para me ajudar. Na verdade, para me carregar, eu diria...

Há muito, muito a contar sobre tudo isso, mas vou deixar pra mais tarde... E esse mais tarde já tem nome: “Hodgkin e eu: transformando um linfoma em limonada”. Vou começar a escrevê-lo em janeiro e espero conseguir fazê-lo de uma forma que, se publicado, possa ajudar muita gente a encarar com fé e alegria uma situação como essa.

Enfim, não queria me estender muito, mas não deu. Vocês são muito, muito especiais e importantes. Se meu jeitão duro na queda não demonstra muito isso, nunca duvidem: vocês são, sim, especialíssimos. Pelo menos pra mim.

O padre Fabio de Melo tem o “péssimo” hábito de falar coisas incríveis, e uma delas é: salvar a vida de alguém é uma maneira bonita que a gente encontra de salvar a vida da gente. Vocês encontraram uma maneira muito bonita de salvar a minha. Obrigado. Mesmo. Do fundo do coração. Obrigado a Deus, aos anjos, aos que já se foram e estão do lado de lá olhando por nós, enfim, a todos que nos ajudam, mesmo que seja sem a gente saber.

Fiquem com Deus porque Ele já está com vocês.


Leandro Chernicharo
25 de dezembro de 2008

domingo, 30 de março de 2008

Julgamentos

Questão importantíssima na vida humana, o julgamento pode assumir duas caras. Podemos encará-lo como o julgamento de alguém por parte de outrem, ou como o julgamento de alguma situação. Um, necessariamente, depende do outro. Não são, porém, a mesma coisa.

Podemos encarar, primeiramente, o julgamento com uma conotação de análise. Por exemplo, antes de agir temos sempre que julgar a situação. Antes de chutar a bola o jogador de futebol de fazer um julgamento da situação. Analisar as possibilidades, verificar se há companheiros mais bem colocados, em melhores condições de fazer o gol. Analisar a que distância está da meta e se seu corpo conseguiria chutar uma bola com risco de êxito da posição em que está. Se escolher a segunda opção e chutar a bola mas não conseguir vencer o goleiro, pode ter havido um erro de julgamento de sua parte. Ou não. Pode ter julgado corretamente, mas na hora de executar o ato algum outro fator acabou impedindo o êxito, por exemplo, um pouco mais de altura na bola e esta bateu na trave ao invés de entrar, ou um desvio por parte de algum jogador do time adversário.

Há, porém, o julgamento mais popularmente conhecido e difundido, que é o julgamento de valores. Este está submetido a leis e há juízes, advogados e promotores. Há um processo, onde provas e contraprovas são apresentadas e, em uma análise conjunta de várias pessoas, onde o juiz dirige os envolvidos e tem opinião bastante decisiva, às vezes definitiva, chega-se a um veredicto, que por sua vez pode não ser o mais correto, pois pode advir de um erro de julgamento. Não deste, mas do outro do parágrafo anterior.

Em muitos momentos em nossas vidas nos deparamos com situações bastante delicadas e muitas vezes de aparente insolubilidade. E tudo se torna pior quando precisamos agir perante essa situação. Ficar indiferente ou impassível faz-se impossível, em alguns momentos. O que fazer quando isso acontece? Os eventos requerem uma ação nossa, mas há muito risco em agir. E se cometermos um erro de julgamento e nossa ação tomar um rumo oposto ao que achamos que iria inicialmente? Situações assim são extremamente delicadas e creio que quase todos nós já passamos por elas, e provavelmente ainda vamos passar outras vezes. Normalmente acontece no ambiente familiar, onde sempre se deve prezar a harmonia e a paz. Qualquer erro de julgamento de qualquer um dos envolvidos no problema pode ser fatal. Tentarei, por partes, falar sobre o que penso a respeito. Veremos que um erro de julgamento nosso pode nos levar a outro julgamento, mas dessa vez estaremos sentados no banco dos réus.

O primeiro ponto: o fato. O que está acontecendo de verdade? Nossa primeira observação em situações como essa deve ser bastante profunda. Temos que pensar sobre o fato. O que temos de indícios e/ou provas a respeito dele? É viável? Há vários momentos onde nos deparamos com coisas que não são o que parecem ser, ao passo que podemos ver coisas que não parecem ser o que são, mas são. Sendo assim, essa primeira análise, a de identificar o fato, deve ser muito bem feita e muito profunda. Os olhos devem estar bem abertos para conseguirmos ver com a maior clareza possível, apesar de isso não garantir que assim o conseguiremos.

O segundo ponto: os envolvidos. Com um fato em mãos, devemos partir para o segundo ponto, que é a análise dos envolvidos. Qual o grau de confiança de cada um dos envolvidos no assunto? O quanto conhecemos a fundo essas pessoas? Aqui entra novamente a questão a respeito do ser o que não parece e parecer o que não é, mas é. Conhecer alguém profundamente é uma tarefa de anos, onde afinidade, intimidade e confiança são fundamentais. Quão maiores forem os índices dessas três variáveis, menor o tempo que se leva para conhecer alguém a fundo. E essa relação de conhecimento é bilateral. Ambos têm que trabalhar sobre essas variáveis para que tudo seja o mais honesto e sincero possível. Não pode haver segredos de nenhum dos dois lados se deseja-se alcançar uma relação de profundo conhecimento. Situações delicadas como a que estou querendo descrever exigem sempre o conhecimento mais profundo possível das pessoas envolvidas no fato. Até mesmo porque isso pode interferir no fato em si. Vejamos um exemplo totalmente hipotético. Meu fato é: alguém está fazendo macumba (sem intenção ou conotação pejorativa, certo? Apenas usando um termo bastante usado popularmente, porém nem sempre corretamente, para fácil compreensão) para que eu largue minha esposa. É viável? Sim, claro. Já vi de tudo nesse mundo. Cheguemos, pois, aos supostos envolvidos. Neste caso acabo descobrindo que é minha mãe. Em tese, poderia parar a investigação imediatamente. Conheço o suficiente minha mãe para afirmar duas coisas. A primeira é que ela ama demais o Cristo para traí-lo desejando o mal a um filho. A segunda é que ela jamais faria macumba, dada sua fé em sua religião. Poderia interromper aí o meu julgamento ou partir em busca de novos suspeitos. Como sempre devemos esclarecer ao máximo as coisas e não confiar em ninguém cegamente, devemos continuar sempre a investigação até o fim. Porém, caso o suspeito não fosse minha mãe, mas sim um ex-namorado de minha esposa, as coisas ficariam bem mais viáveis e eu continuaria minha análise. É nesse aspecto que se torna fundamental o conhecimento dos envolvidos. E, repito, esta relação de profundo conhecimento se dá bilateralmente, quando não há qualquer segredo em qualquer direção. Onde há segredo não há confiança. E não me refiro a segredos de fatos, mas segredos de fundo moral, de personalidade. Por exemplo, há um segredo sobre um desvio de conduta ética, como pequenos furtos ou preconceito com pessoas de outra cor. As personalidades envolvidas na relação devem se conhecer por completo, mesmo que haja fatos escondidos. É por isso que esta é a parte que considero a mais difícil de todo esse julgamento, pois até que ponto podemos ou não saber se conhecemos alguém profundamente?

O terceiro ponto: as provas. Provavelmente quando chegamos aqui temos, no mínimo, um forte indício. E ao contrário do que alguns pensam, há, sim, julgamentos por indícios, sem provas, pois é pra isso que serve todo esse processo de análise: pra ver se indícios se tornam, na verdade, em provas. Assim como o segundo ponto depende do primeiro, este aqui depende do anterior. Indícios podem ganhar ou perder força dependendo das pessoas envolvidas. Voltando à situação hipotética levantada acima, uma foto de minha mãe ou do suposto ex-namorado fazendo a tal macumba iria mudar muita coisa a respeito do que eu poderia estar pensando, mas não seria prova definitiva, visto que poderia ser uma montagem. Já algo menos concreto e contundente do que uma foto – uma testemunha, por exemplo – nos traria a outro contexto. Testemunhas são seres humanos e, como tal, são imperfeitos. Além disso, sua índole e sua moral variam muito entre uma e outra pessoa. Por isso, teríamos que ter também um grau de conhecimento da testemunha, o que nem sempre é possível. Ou seja, se não há provas ou indícios de nada, o mais prudente é suspender a análise e ir à busca deles. É melhor do que acusar alguém injustamente. Se há ao menos um indício, sigamos com o julgamento.

O quarto e último ponto: a ação. Este é, sem dúvidas, o momento mais delicado de todos. Não o mais difícil, mas o mais delicado. Dependendo de como agirmos, tudo que foi analisado pode ir por água abaixo. Mesmo se tivermos razão, provas, etc., se tomarmos a atitude errada podemos pôr tudo a perder. Além disso, nossa atitude posso ser interpretada errada. É por isso, portanto, que vou dispensar um certo tempo neste tópico.

Acontece ciclicamente em casos como esse a necessidade de julgamento de valores, de idéias, de ideais, de moral, etc. Não o julgamento acusativo, mas aquele que te faz entender a situação, as ações das pessoas que estão envolvidas. Isso se dá em todos os lados do problema. Quando partimos para a ação, passamos a abrir o espaço para que os atingidos por ela julguem tudo o que estamos fazendo. Por isso devemos ter o maior cuidado ao decidir o que fazer. Devemos analisar muito bem o fato, quem está envolvido e o quanto o conhecemos, além do número e da confiabilidade das provas que temos. Só assim poderemos agir. Por experiência própria, posso dizer que nesta hora o conhecimento dos envolvidos se torna bastante importante. Decisivo, eu diria. Voltemos mais uma vez à hipotética macumba. Suponhamos que minha mãe fosse a envolvida e que eu decidisse ir conversar com ela a respeito. Existem duas alternativas. A primeira: ela confirmar o fato, o que me causaria completa decepção, visto que acabaria de constatar que não conheço nem mesmo minha mãe, que é capaz de desejar o mal do próprio filho. A segunda: ela negar. Se isto acontecesse, certamente, pelo que a conheço, ela me perdoaria por ter levado a ela tal desconfiança, mas dadas as minhas provas e/ou indícios, ela entenderia. Mas, certamente, me ajudaria a esclarecer as coisas. Vejamos o caso agora com o envolvido sendo o ex-namorado de minha esposa e minha decisão fosse também ir falar com ele. Ele poderia confirmar, o que me levaria a um novo julgamento, mas dessa vez sobre o que fazer, ou poderia negar. Se ele negasse, eu cairia em um novo problema: não o conhecer o suficiente para saber se ele está falando a verdade. Sim, isso tudo é muito complicado.

Obviamente cada caso é um caso e cada um tem seus critérios de julgamento. O que quero mostrar é que antes de agirmos em uma situação delicada, que ameaça a paz e a harmonia, mesmo que tenhamos boa intenção, podemos não ser compreendidos. Imaginemos que no hipotético caso que mencionei acima, minha mãe negasse, que isto fosse verdade, mas que ela, ao invés de agir como previ e escrevi acima, se magoasse comigo de tal forma, mesmo com todas as minhas provas/indícios, que parasse de falar comigo, ou que chorasse por dias dada a tristeza e/ou decepção pela minha desconfiança, enfim, qualquer coisa com conotação negativa a respeito do que fiz.

Muitas vezes queremos apenas zelar pelas pessoas que amamos, queremos ter a certeza de que está tudo bem, queremos alertar, prevenir, ajudar, mas ainda assim podemos ser mal compreendidos, mesmo tendo nossas muitas razões. Aí entra em cena outro fator: o estado de espírito, de paz espiritual que a pessoa envolvida se encontra.

Além dos quatro pontos que coloquei acima, no segundo deles, os envolvidos, há a questão muitíssimo pessoal do estado de espírito. Tanto nós quanto os demais envolvidos na situação podemos estar passando por problemas espirituais, que certamente interferirão negativamente no julgamento de todo o caso. A influência negativa em nossa mente – que pode variar muito de intensidade, desde a mais sutil até a mais agressiva – faz com que não consigamos ver as coisas exatamente como elas são. O mais grave disso é que, em quase todos os casos onde isto acontece, o influenciado não se sabe e/ou percebe assim. Por isso a constante vigilância de nossos pensamentos e atos, mantendo sempre ideais elevados, que estejam de acordo com os preceitos morais mais nobres, seja em que área da vida seja, é o recomendado para o nosso dia-a-dia. Só assim poderemos diminuir muito, praticamente neutralizar, as chances dessa influência nociva, à qual todos estamos sujeitos. Essa vigilância deve ser constante, e deve durar o dia todo, todos os dias.

Assumamos que, ainda no exemplo acima, a reação de minha mãe tenha sido a de negar e ficar magoada comigo. Poderia ela estar passando por alguma influência que não a permita ver que eu não quis magoá-la, ofendê-la e apenas esclarecer um assunto que chegou até mim? Que o fato de ela reagir sem a compreensão esperada por um amor materno possa ser resultado de uma influência negativa que quer prejudicá-la ou a mim? Sim, pode. E é bem provável que seja. O que devemos fazer nessas horas é não forçar o convencimento. Se ela estiver sob influência não nos escutará. Cabe a nós a demonstração pelo exemplo, pela oração e pela compreensão, para que isso possa, naturalmente, com o passar do sagrado tempo, demonstrar a verdade. Nunca devemos desistir. Lembremo-nos de que a paz e o bem comum devem sempre prevalecer, e que nada nesta vida acontece por acaso. Tudo tem uma causa que Deus conhece. Tudo pelo que passamos nos deve servir de aprendizado para o enobrecimento interior.

São complicadas, muito mais do que parecem, as relações humanas sem afetar o bem comum. O exemplo acima é apenas uma hipótese, mas quantos de nós já não passamos por situações muito delicadas com pessoas muito queridas onde houve um aumento do problema por um erro de julgamento de alguma das partes envolvidas? Isso é muitíssimo comum. Cabe a nós manter o espírito em melhor estado possível para quando estes momentos chegarem estarmos mais aptos a pensar em todas essas coisas que mencionei, além, é claro, das particularidades de cada caso. A análise deve ser cuidadosa. Se a reação for inesperada e negativa, cabe a nós a paciência e tolerância mediante o problema, sempre rezando e exemplificando as nossas idéias na nossa vida, nas nossas atitudes, para poder demonstrar pouco a pouco aos envolvidos que tínhamos razão. É, sim, muito difícil. É, sim, muito delicado. Mas é aí que está o mérito: no êxito sobre as provas difíceis que a vida nos impõe.

Nesta parte somos automaticamente levados ao outro ponto deste texto, o outro julgamento. Aquele onde há juízes, advogados e réus. É muito comum que as pessoas que não entendem a nossa atitude, a nossa opinião, pensem que as estamos julgando, mas desta vez o julgamento que leva à condenação. A maior parte do problema que nasce com a má interpretação de nossa atitude reside aí. A confusão toda nasce na idéia de que, uma vez que estamos apontando um problema, estamos condenando a pessoa por ele. Vêem-nos como promotores sedentos pela vitória. Isso é comum. É muito natural que isso aconteça, principalmente se o indivíduo estiver vivendo em uma psicosfera negativa, má influenciada em seu ambiente espiritual. Essas má influências dificultarão a compreensão do fato, dos argumentos apresentados e das atitudes tomadas por nós. A visão espiritual fica turva, dadas as sombras que a envolvem. Como já disse: é fundamental que tentemos ao máximo agir sempre de acordo com a mais correta moral. É óbvio que dadas as nossas fraquezas isso é quase impossível, mas apenas por sempre pensarmos assim, por sempre vigiarmos nossos pensamentos e ações, o caminho já está sendo percorrido, já é um grande passo. Assim a nossa sintonia com as coisas boas, com os ambientes de luz fica maior e a força para seguir em frente também aumenta, afastando as sombras. Nesses casos temos que ter a paciência, manter a oração intercessora e a demonstração pelos exemplos, principalmente. Cabe a nós evitar que o problema se agrave e compreender que somente o tempo pode dar as condições para que a luz aja e renove o espírito da pessoa. Tentar demonstrar que não condena o que a pessoa fez ou faz, apesar de discordar dela, raramente resolve nesses casos. Só a experiência do tempo e a oração com fé podem agir. É importante deixar claro que devemos também fazer uma auto-análise para identificar se realmente não estamos agindo com condenação. Se assim o estivermos, cabe a nós mudar esta postura, sempre compreendendo e respeitando as escolhas do próximo.

Um fato muito comum de acontecer em situações dessa natureza é a citação por parte da pessoa do ”não julgueis para não serdes julgados” e do ”retira primeiro a trave do teu olho antes de enxergar o cisco no olho do próximo” instituídos por Jesus. Gostaria de discorrer um pouco sobre essas frases.

Creio que quando Jesus disse para não julgarmos, ele se referia ao que mencionei um pouco acima. Não é porque você não concorda com uma opinião ou atitude de alguém que você deva condená-la por isso, excluí-la de seu meio ou de sua vida. Muito pelo contrário. Cabe a você perceber, sim, o erro – até para não cometê-lo também –, alertar a pessoa a quem você tem afeto, e continuar sua relação com ela, independente do que aconteça. Óbvio que não estou falando aqui em situações de adultério, por exemplo, você precise continuar com seu companheiro se ele ou ela tem outra pessoa. Em casos assim, é razoável que procuremos o que é melhor pra nós. A beleza está, portanto, na arte do perdão, que permitirá que continuemos a relação com essa pessoa, mas de uma outra maneira, como colega ou amigo. A questão em análise aqui é diferente. Não é o perdão das ofensas, mas sim a capacidade de vivermos em sociedade harmonicamente respeitando as diferenças, evitando acusações e condenações, pois devemos ter sempre em mente que somos também passíveis de estar no “banco dos réus” a qualquer momento.

Voltando à frase de Jesus, ele próprio em várias ocasiões percebeu e apontou vários erros (que são expostos como pecados no Evangelho) e atuou sobre eles. Erros, inclusive, de cunho político e religioso da época, não apenas os erros individuais. Porém, mesmo intercedendo, ele nunca condenou ninguém. Sempre perdoou e trouxe, ou tentou trazer, essas pessoas para junto de si. É assim que devemos agir. O fato de percebermos um problema, uma idéia que não condiz com o que pensamos ser certo, não nos dá o direito de condenar ninguém. Muito pelo contrário.

É neste ponto que entra a outra frase de Jesus, a de olharmos primeiro pra trave em nosso olho antes do cisco no olho do outro. Que direito temos de condenar os erros de qualquer pessoa, quando estamos tão cheios de erros também dentro de nós? Reparem que nos parágrafos acima em todo o tempo eu mencionava a nossa própria avaliação, a vigilância de nossa conduta e de nossos pensamentos, sempre visando nos corrigir. Isto é tirar a trave de nossos olhos. Acusar é fácil, se corrigir é difícil. Temos que nos corrigir constantemente para estarmos sempre, ou o maior tempo possível, dentro do caminho do bem. Isso nos dá o direito de tentar ajudar nossos semelhantes mostrando-lhes o que está errado e pode ser mudado. Isso não é acusar. É ajudar, é educar. E, se temos a nossa própria conduta como exemplo, nosso apontamento ganha força. O exemplo é a chave de tudo.

Portanto, cuidemo-nos todos com os erros de julgamento. Somos passados a essa prova diariamente, a todo o tempo. A correta interpretação das atitudes e palavras de outrem é muito difícil e exige muito cuidado e análise de diversos fatores. Tentemos fazer como Jesus, que sempre deu o exemplo, sempre agiu sobre as coisas do espírito, corrigindo e educando, mas nunca condenando. É claro que podem pensar que os estamos condenando, isto é algo que acontece, principalmente quando há má influência, mas nunca podemos deixar que esse pensamento seja realmente verdade. Com certeza, um dia seremos nós sentados no banco dos réus.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Seguir ou não seguir?

Hoje acordei sem muita coisa para escrever. O ânimo estava meio baixo. Momento de fraqueza diante dos problemas que se apresentam cotidianamente. Passei boa parte da noite pensando, me questionando se eu não estava sendo meio exagerado em algumas atitudes, se realmente estou indo pelo caminho certo. Procurei auxílio na fonte máxima de luz. Não, não no sol. No Evangelho, sol do Sol. O capítulo X do livro de Mateus foi o que veio muito bem a calhar e, como não poderia deixar de ser, explicou muita coisa. Fala sobre a escolha e a missão dos apóstolos. Um trecho em especial me chamou atenção, os versículos 34 a 36. Transcrevo-os.

“Não julgueis que eu tenha vindo trazer paz à Terra. Não vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim separar o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra. E os inimigos do homem serão os de sua própria casa.”

Como o trecho é polêmico, mas muito profético, fui procurar o que significava. Parti em busca de exemplos. Achei algumas coisas bastante interessantes na história do cristianismo. Vejamos algumas.

Bárbara era filha única de um nobre comerciante turco. Em determinada ocasião seu pai precisou viajar e, por ela ser ainda muito jovem, este a trancou em uma torre para que ela não tivesse contato com a sociedade. Ele receava que ela fosse corrompida, dada a corrupção vigente na época. Durante esse tempo ela pôde estudar e acabou tornando-se cristã. Ao voltar de viagem e saber da notícia da conversão da filha, seu pai tentou convencê-la a abdicar de sua fé e crer nos deuses do Império Romano. Diante de sua negação, seu pai a denunciou ao prefeito da cidade, que a torturou tentando a conversão. Como a jovem insistia em sua fé, foi condenada à morte, sentença executada pelo próprio pai.

Tomás de Aquino, um dos mais respeitáveis e inteligentes religiosos da igreja católica de todos os tempos, foi criado por seus pais, nobres da região de Nápoles, para que se tornasse abade do mosteiro de Monte Cassino, onde foi internado pela família aos cinco anos de idade. Aos dezenove decidiu se juntar aos dominicanos, ordem mendicante criada por Domingos de Gusmão. Diante da negação da família, foi obrigado a fugir de casa para seguir sua vida em caminho do Cristo.

Francisco era filho de um rico comerciante da região da Úmbria, na Itália. Seu pai sonhava em torná-lo seu herdeiro nas rédeas do próspero negócio de tecidos que possuía. Ainda jovem foi à guerra, onde ficou preso por um ano. Voltou do cárcere muito doente, e durante sua recuperação foi se convertendo lentamente. Depois de curado, Francisco decidiu reformar a igreja de São Damião com o dinheiro do pai, que o acusou de furto. Diante do bispo e da família, Francisco pediu a benção à igreja, abriu mão de tudo que tinha e lhe fora dado pelo pai, inclusive as vestes que carregava no corpo, e saiu para cumprir sua missão religiosa.

Clara era uma belíssima jovem, filha de nobres também da região da Úmbria. Foi muito influenciada na vida religiosa e até mesmo na escolha deste caminho pelos exemplos que presenciava de Francisco de Assis. Contrariando a decisão da família de lhe casar com um jovem rico, Clara foi obrigada a abandonar tudo e seguir Francisco, fundando a Ordem das Clarissas, o que pode-se considerar a vertente feminina da Ordem Franciscana. Viveu em extrema pobreza até o último dia de sua vida.

Estes são apenas alguns dos muitos exemplos que temos ao longo da história narrando problemas e divergências, familiares ou não, por causa do Cristo. Ele os previu corretamente, como tudo aquilo que fez. Nenhuma de suas palavras ficou sem exemplificação. Nenhuma. A pergunta é apenas esta: quem estava com a razão: As famílias, que queriam viver os gozos das facilidades da vida mundana, ou os futuros santos, que abriram mão de tudo que fosse inerente ao mundo físico para cultivar as virtudes do espírito? Vale à pena conhecer mais profundamente a história desses homens e mulheres antes de responder.

Nosso papel na Terra é único. Cada um traz consigo um conjunto de responsabilidades e tarefas a cumprir. Não podemos exigir de todos que vivam em extrema pobreza. Eu mesmo jamais conseguiria. Seria extrema hipocrisia de minha parte dizer o contrário. E, sinceramente, creio que no mundo de hoje isso seja quase impossível. O planeta está cada vez mais envolto em um universo tecnológico e a vida cotidiana exige, em qualquer país, do mais pobre ao mais rico, muito esforço, trabalho e suor. Não que não fosse assim antes, mas a competição quase antropófaga do mundo atual é castradora em diversos sentidos. Além disso, nas épocas narradas acima os alicerces das religiões e da moral humana ainda estavam sendo construídos. Hoje já há uma gama imensa de exemplos em todas as crenças, culturas e povos, cristãos ou nãos, para que neles o homem se baseie. É fato que há ainda muita má interpretação humana da maioria desses exemplos, mas isso é outro problema, que não vou abordar aqui.

Nosso papel nesse mundo é viver a vida que deve ser vivida aqui, sem achar, porém, que tudo se encerra e se resume aqui. Ao longo dos anos temos que viver sempre de acordo com os preceitos e leis de Deus, mesmo que isso vá contra amigos ou familiares. Nossas escolhas e atitudes devem ser sempre tomadas de acordo com os bons princípios, com os exemplos de todos esses que passaram pelo mundo como base. A moral do ser humano não tem religião. Os bons exemplos não são de propriedade de um ou outro credo. Preocuparia-me demais ouvir um cristão dizer que Gandhi não é um exemplo de moral, amor, caridade e caráter, ou um hindu dizer o mesmo do Cristo. Até porque Gandhi O respeitava e admirava. Vejam o que ele diz a Seu respeito:

“Cristo é a maior fonte de força espiritual que o homem tenha conhecido. Ele é o exemplo mais nobre de um que deseja dar tudo sem pedir nada. Cristo não pertence somente ao Cristianismo, mas ao mundo inteiro”

Enfim, os exemplos estão aí. Adaptemo-los às nossas vidas, ao nosso tempo, ao nosso dia-a-dia, às nossas possibilidades (isso é muitíssimo importante) e sigamo-los sempre, à medida do possível. Temos, cada um, os nossos limites, que devem ser respeitados. O importante é que sempre tentemos chegar a esse limite, dar sempre o nosso melhor, nos esforçamos ao máximo para que cheguemos lá um dia.

Acabo de perceber uma coisa: como deve ser feita a vontade de Deus e não a minha, acabei escrevendo um bocado...

terça-feira, 11 de março de 2008

Um homem de poucos amigos...

Hoje o texto é curto, e não é de minha autoria. Mas como tem tudo a ver com o momento que passo em minha vida, decidi postá-lo. Acredito que vai acalmar uns e esclarecer outros. Fiquem com a bela passagem...

Conta Fülöp-Milller que, já estando no final da vida, com o corpo cansado pelas muitas provações que sofrera, Santa Teresa D'Ávila havia partido com uma caravana para fundar um novo convento em Burgos. As estradas estavam inundadas pelas chuvas e era necessário atravessar o Rio Arlazón antes de chegar-se ao destino. Tendo sido destruída a ponte, pela força das águas, segundo relata o autor, Teresa atirou-se bravamente à travessia, conclamando suas companheiras com alegria e determinação:

- Venha o que vier. Se desmaiardes no caminho, se morrerdes na estrada, se o mundo for destruído, tudo isto está bem se atingirdes o vosso alvo.

Desse modo, conclamando todas a segui-la, avançou corajosamente pela água gelada. Foi, então, que uma onda a fez escorregar para a parte mais funda do rio. Na luta desesperadora para vencer as águas e sobreviver, vislumbrou a presença excelsa de Jesus. O Mestre Divino ofereceu-lhe o apoio de seus braços fortes, agarrando-a pela mão. Teresa se salvou. Profundamente agradecida pelo amparo celeste, exclamou:

- Ah, Senhor! Graças à sua misericórdia, estou viva! Estou a salvo do perigo!

E Jesus, compassivo, retrucou-lhe:

- Você está vendo, Teresa? É assim, em meio aos perigos da estrada, que eu trato os meus discípulos e os meus amigos queridos!

Teresa D'Ávila ouviu muito atentamente o Senhor. Logo após meditar um pouco, redarguiu ao Mestre, revelando lúcido senso de humor:

– Oh, Senhor, compreendo! É por isso que os tendes tão poucos.

sábado, 8 de março de 2008

A pedra fundamental

Todos os dias eu me pergunto onde está a minha certeza das coisas? Onde está a pedra fundamental onde baseio minhas crenças? É bem razoável que me pergunte isso, certo? Afinal, posso estar me baseando em coisas erradas, e se assim estiver, devo mudar. Dizer que me baseio no amor é muito relativo. O amor é um sentimento que, em tese, é universal, mas pode não ser. Depende da cultura de cada um. Há ateus, que não crêem em Deus, que para a grande maioria é a fonte do amor, mas ainda assim dizem “eu te amo” para seus maridos e esposas. Há os islâmicos (e não o islamismo), que juram que as mortes que causam são em nome do amor a Alá, embora possa dizer que li o Corão e, de acordo com minha interpretação, não há nele uma linha sobre isso. Há os cristãos (e não o cristianismo), que dizem que Cristo é o maior dos exemplos de amor, mas organizaram as Cruzadas em Seu nome. Enfim, há de tudo. Todos os tipos de crenças, religiões, culturas, etc. Em várias delas há os contrapontos a respeito do amor. Para quem crê que Deus é amor, como acreditar quando um ateu lhe diz “eu te amo”? Estranho, não? Paradoxal, eu diria, mas talvez seja verdade. Por que não seria? Na visão dele pode ser. O problema é: de onde vem sua visão de amor? O que é o amor para ele?

Eu, particularmente, acho que o amor é universal, sim. Sua compreensão dele é que não é. E é exatamente por isso que acho que, por mais nobre que seja, este sentimento realmente não deve ser a única base para toda a minha conduta, a minha crença. Explico.

Há quem defenda que no amor vale tudo. Que não há leis no amor. Para mim isso é muito, muito estranho. Recuso-me a acreditar que Deus, que para mim é a fonte do amor, ache natural, por exemplo, um marido espancar a esposa e essa não prestar queixa, pois a justificativa é que ela ama o seu companheiro. Recuso-me que Deus ache normal um filho espancar a mãe e esta não fazer nada a respeito. Recuso-me a acreditar que Deus ache normal que um casal que diz que se ama participa de orgias. Enfim, há muitas coisas que alguns dizem ser feitas em nome do amor, mas que minha percepção de Deus não me deixa acreditar como o sendo realmente. Diversos homens passaram pela Terra ensinando o que é o amor. Eu escolhi, dentre eles, o Cristo. Este homem deixou um mandamento: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Não foi só amar a Deus sobre todas as coisas ou só ao próximo como a si mesmo. Foi os dois. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Sendo assim, Deus vem em primeiro lugar. Ele vem sobre todas as coisas. E por todas podemos incluir nossa própria individualidade. Ora, se devemos amar a Deus acima de tudo, praticar atitudes que sejam contra o que Ele é em essência, ou seja, amor, é não amá-Lo. É, no mínimo, desrespeitá-Lo. Creio eu, em minha pequena compreensão da vida, que há determinadas condutas que, mesmo justificadas com o amor, não condizem com ele. As que citei acima são alguns exemplos. Por isso disse que creio que o amor seja universal. O mesmo já não posso dizer a respeito da compreensão que se tem dele. Isso varia. Sempre, é claro, deturpada pela nossa condição de humanos imperfeitos. É este o motivo de eu não pautar minha conduta apenas pelo amor, pois assim eu poderia estar caindo em erro, poderia dar má interpretação a algo tão sublime e puro. Não me atrevo a conceber uma nova idéia de amor. Pauto, portanto, minha conduta na do homem que, para mim, foi o maior exemplo na Terra: Jesus Cristo. Certamente não me comparo a Ele, mas tenho-O como meu modelo, como aquilo que eu gostaria de ser. Vivo, portanto, tentando ser como Ele. Não consigo, certamente. E, pelo menos sem renascer inúmeras vezes de água e Espírito, como Ele mesmo disse, não conseguirei. Mas tento. É pra Ele que olho. É pra Ele que direciono meus pensamentos. É pra Ele que direciono minhas ações.

Jesus Cristo nos ensinou o amor puro, mas não nos isentou das responsabilidades. Ditou inúmeras normas, apresentou inúmeros exemplos de coisas derivadas do amor. Apresentou restrições àqueles que queiram segui-Lo e ascender ao Reino dos Céus, como Ele chamava. Falou-nos de caridade, de respeito, de oração, de vigilância de atos e pensamentos e de brandura do coração. Lamentou os que faziam a guerra e os que não O davam ouvidos. Calou-se diante do tribunal que o acusava e se fez servo dos que O seguiam, mostrando-lhes a humildade. Mesmo assim, sempre afirmou com certeza e propriedade que Ele era o caminho, a verdade e a vida. Como não lembrar do sermão da montanha e das bem aventuranças? Como esquecer seu pranto no Monte das Oliveiras, aflito pelos momentos do porvir? Ainda na cruz perdoava os inimigos que lá O colocaram. Jesus foi, sim, um imenso exemplo de amor. É respeitado por todos os povos por isso, mesmo aqueles que não O têm como o messias. Mas não foi só isso. Foi um grande educador. Um homem que veio para disciplinar a todos. Repreendia quando necessário. Chamava de hipócritas aqueles que como tais se comportavam. Ordenou que Pedro baixasse a espada e o repreendeu duramente quando este cortou a orelha do soldado que o prendera. Era amoroso, a personificação do amor, mas era severo e disciplinado. Deus o fizera assim. Pensar o contrário era julgar que Deus deixou a critério dos homens o juízo do que é certo e errado baseado apenas em suas próprias interpretações do amor. Fazer isso é negar veementemente que Jesus é, portanto, o messias prometido. É achar que Deus não tem Suas próprias leis. Que nós somos os responsáveis por determiná-las em nossas vidas a nosso bel prazer. Não creio em um Deus perfeito assim.

Negar o Cristo não é um problema para os povos não cristãos, que têm, por sua vez, seus representantes. O problema é quando alguém se diz cristão mas não age como tal, negando que Cristo seja o exemplo máximo de conduta e amor. Todas as religiões, cristãs ou não, possuem seus representantes, seus ícones máximos. Além deles há os que vieram depois para ratificar os exemplos. Em todos os povos da humanidade já nasceram grandes homens e mulheres que sempre ganharam notoriedade por suas condutas e palavras. Santos ou não, vários desses seres humanos marcaram e marcarão para sempre nossas vidas e a história do mundo. Gandhi, Luther King, Mandela, Irmã Dulce, Francisco Cândido Xavier, os seguidos Dalai Lama... Enfim, vários foram os exemplos de amor, mas não apenas de amor, que passaram por aqui. Todos eles, cada um em sua respectiva crença, em seu respectivo meio cultural, social e religioso, seguiam e ensinavam suas regras de conduta aos que passavam por seus caminhos. Nenhum deles interpretava o amor através de sua própria cabeça, de seu próprio raciocínio. Todos tinham uma base, cristã ou não, que seguiam com fervor. O respeito ao ser humano é o primeiro ponto que todos tinham em comum. Não consigo ver qualquer um deles desrespeitando os pais, abusando de seus instintos sexuais, remoendo rancores e ódio sem perdão, falando inverdades a respeito de alguém, principalmente daqueles com os quais mantinham relação próxima. Não os vi fazendo isso e não há registro na história de que tenham feito.

Por isso, meus caros, não tomo apenas o amor como base, pois minha imperfeição humana poderia, e certamente o faria, deturpar o mais sublime dos sentimentos. Aquele que Deus escolheu como sendo seu sinônimo. Prefiro, portanto, seguir os exemplos que já foram dados ao longo da história da humanidade. Os fatos estão aí, basta querer enxergar e, principalmente, seguir. Não sou ou tenho pretensão de ser algum desses homens ou mulheres. Não quero ditar aos outros o que fazer. Exponho a vocês aquilo que julgo poder ajudá-los a achar o caminho, como eu creio que tenha achado. Isso obviamente não quer dizer que este caminho não é cheio de dificuldades que nossa imperfeição vai impedir ou dificultar que sejam transpostos. Não tem problema. Deus ajuda. Ele tudo vê. Ele é o único que nos conhece no íntimo e sabe nossas verdadeiras intenções. É somente a Ele que nossa consciência presta contas. Mas ela presta contas. E não basta que amemos ao amigo, isso até os fariseus fazem, dizia Jesus. Temos que amar os inimigos para ter mérito. É tudo sempre pelo caminho mais difícil para chegar a Deus. Por isso não me atrevo dizer que me basta o amor. Não me basta. Ele me sustenta, é diferente. Ele me move para chegar até onde Deus quer que eu chegue, neste ou em outros tempos. O amor é o mais sublimes dos dons, nos ensinou Paulo de Tarso. Mas este mesmo Paulo provou e ensinou que a disciplina e o cumprimento das tarefas e responsabilidades é fundamental. O amor nos leva a cumpri-las, não o contrário.

Creio que no momento não tenha na Terra alguém encarnado que seja digno de se comparar a esses homens e mulheres maravilhosos que por aqui passaram para nos ensinar. Isso não é importante. O que realmente importa é que tenhamos a consciência de que eles acharam o caminho, e por imensa caridade divina, nos mostraram qual é e, principalmente, como segui-lo. Eu escolhi ir com eles. E você, por onde vai?

sábado, 23 de fevereiro de 2008

O homem das cavernas

Era mais um lindo início de tarde ensolarado naquela pequena cidade. A movimentação era grande, pois estava na hora da troca de turno na única escola que havia por lá. Os alunos da manhã deixavam o ambiente, ao passo que os aprendizes do turno da tarde se aproximavam e aguardavam o momento correto para entrarem para mais uma jornada de aprendizado.

Em um canto perto do portão principal já se havia formado um pequeno grupo de moças e rapazes que conversavam animadamente a respeito das coisas do cotidiano: namoro, amizade, música, enfim, tudo aquilo que jovens saudáveis desta faixa de idade costumam conversar.

Em dado instante um dos rapazes do grupo, de nome Natanael, sentiu a falta de um amigo que costumava participar das conversas e perguntou aos demais, preocupado:

- Por acaso algum de vocês sabe do Pedro? Ele não passou lá em casa para virmos juntos, como fazemos todos os dias, nem chegou até agora. Será que ele está doente?

Diante da resposta negativa de todos, Natanael guardou sua preocupação, para evitar quebrar o clima divertido e amistoso que se formara, e continuou a conversação com os demais colegas.

Do outro lado do portão, dentro do colégio, mais especificamente próximo à sala dos professores, Pedro aguardava ansioso pelo fim da aula do turno da manhã, pois precisava conversar com o professor Demétrius. Estava muito preocupado e queria ouvir alguns conselhos daquele que ele julgava ser o mais bondoso homem existente na cidade, quiçá no mundo.

Não tardou muito para que o aguardado professor chegasse. Ao ver o jovem ali tão cedo e com a expressão um pouco alterada, o gentil ancião perguntou alegremente:

- Pedro, meu filho, o que o traz aqui? Por que você não está lá fora com seus amigos, paquerando as belas moças da sua idade?
- Ah, professor, preciso muito conversar com o senhor. O senhor teria alguns minutos para mim?

Demétrius, solícito, respondeu afirmativamente, convidando-o a entrar com ele na pequena sala dedicada ao descanso dos professores. O anfitrião providenciou uma cadeira e um copo de água para cada um e perguntou ao rapaz:

- Então, meu filho, o que lhe perturba e o traz ao convívio desse homem velho, privando seus amigos de sua agradável companhia?

O jovem mal esperou seu professor acabar a pergunta para começar a narrar, ansioso, aquilo que o afligia.

- Sabe o que é, professor? Eu ando muito triste... Eu olho em volta e vejo que não tenho lá muitos motivos pra ficar assim, mas eu não consigo mudar. Eu tenho os meus amigos que gostam de mim, faço um razoável sucesso com as meninas, não passo fome, tenho pais maravilhosos, mas ando muito triste, sentindo falta de alguma coisa que eu não sei nem o que é. Me sinto mal por isso, pois sei que não deveria ser tão ingrato com a vida... Como vejo que o senhor nunca fica triste, está sempre rindo e sempre brincando com todos nós, vim lhe perguntar qual é o segredo de tamanho bom humor...

Demétrius sorriu. Aquele era mais um jovem que passava pelo velho problema da busca incessante da felicidade. Ele mesmo havia passado por isso quando era daquela idade. Conhecia cada uma das rugas causada por essa insaciável sede intrínseca ao ser humano no ainda jovem rosto do rapaz à sua frente. Com toda a brandura que lhe era inerente, o professor tentou melhorar o ânimo de Pedro.

- Meu bom rapaz, acalme-se. Pergunto-lhe uma coisa: você conhece alguém nesse mundo que tenha tudo aquilo que deseja?
- Não.
- E quantas dessas pessoas que você conhece são felizes.
- Muitas delas. Na verdade, quase todas.
- E por que você não é?
- Não sei, por isso me sinto mal, me sinto culpado e ingrato. Injusto com aqueles que têm menos do que eu. Existe tanta gente no mundo sem família, sem amigos, sem casa pra morar...
- Exatamente, meu filho. Veja este velho homem à sua frente... Se formos levar em conta os bens que possuímos, o que tenho eu se comparado a você? Não tenho mais pais, não tenho mais minha querida esposa que já se foi há alguns anos, não tenho filhos, irmãos ou qualquer pessoa pra cuidar de mim. Moro sozinho e vivo apenas do meu trabalho como professor nesta escola. Apesar disso tudo, você por um acaso já me viu triste andando por aí?
- Não, senhor. É exatamente por isso que vim lhe procurar, “seu” Demétrius... Acho que só o senhor pode me ajudar...

O velho professor, abrindo um sorriso largo, pousou a mão sobre o ombro direito do jovem e disse:

- Deixe-me contar-lhe uma história. Há muitos e muitos anos o mundo era habitado apenas por homens bastante primitivos, que chamamos vulgarmente de “homens das cavernas”, certo?
- Sim.
- Existe uma pequena estória em minha família que é passada de geração em geração, e que foi passada até mim por minha doce, saudosa e querida avó. Essa estória conta um caso interessante que teria acontecido com um homem das cavernas...

“O homem vivia sozinho em sua gruta. Não possuía vizinhos, amigos ou nada que julgasse muito interessante à sua volta. Um belo dia, ele decidiu que nada daquilo valia à pena. Havia se cansado de tanta solidão. Vivera anos daquela maneira. Era chegada a hora de mudar, de ser feliz. Sempre que subia no cume dos morros ele via vales imensos, campos floridos e uma promessa de vida muito mais interessante do que aquela que levava. Estava farto de morar em sua caverna escura, de comer sempre as mesmas frutas, as mesmas espécies de animais e ter apenas os pássaros como companhia.”

“Em uma bela manhã de sol, o homem decidiu juntar suas armas, suas vestes, um pouco de comida e sair em busca de uma morada do outro lado da montanha, onde certamente encontraria sociedade, melhor alimentação e habitação. Partiu, então, com o coração repleto de esperanças, em busca de uma nova vida, de mais alegria e felicidade.”

“Alguns dias de viagem se passaram e o esperançoso homem chegou ao seu destino. Um lindo campo, cheio de flores, frutas e animais que ele não conhecia. Uma infinidade de maravilhas escondidas de seus olhos até aquele momento era ali revelada. Aquele homem solitário nunca havia se sentido tão feliz em toda a sua vida e tinha a total certeza de que tudo aquilo com o que sonhara era, finalmente, seu.”

“Os dias iam passando e as descobertas eram incessantes. Cada novo animal que caçava, cada planta que cheirava, tudo aquilo fazia valer à pena tantos anos de espera.”

“Um dia, porém, a chuva caiu forte e impiedosa. Naquele lindo campo aberto, cheio de nobres e belas manifestações de vida, a fúria da água que vinha do céu era brutal e castigava o homem que, desprotegido, sem sua escura caverna, não tinha onde se esconder. Seguidos e ininterruptos foram os dias de tempestade, até que em uma determinada manhã o sol decidiu brindar novamente o mundo com seu calor e sua força revigorante.”

“Talvez esse tenha sido realmente o dia mais feliz daquele aventureiro homem das cavernas. Os seguidos dias de chuva, vento e frio fizeram com que ele adoecesse, e a luz do sol era um bálsamo que lhe iria trazer de volta a saúde perfeita. Decidiu, então, se alimentar, mas olhou em volta e viu todo o estrago que a tempestade havia causado aos animais que havia caçado. Doente como estava não tinha forças para novas caçadas, muito menos para voltar pra casa.”

“Sua situação foi se agravando dia após dia.”

“Juntando todas as forças que lhe restavam, o homem levantou e decidiu procurar alguma planta para comer, pois a fome era muito grande e caçar era, naquele momento, impossível. Viu algumas ervas que lhe pareciam não venenosas, pois eram bastante perfumadas e bonitas, e decidiu ingeri-las. O pobre aventureiro só conseguiu fazer isto uma vez. Sem o saber, as plantas que ingerira eram levemente venenosas e, como estava muito fraco, não teve forças para reagir, morrendo pouco tempo depois”.

Ante o olhar fixo e atencioso do jovem Pedro, Demétrius prosseguiu.

- Cada um de nós, meu rapaz, dispõe na vida de tudo aquilo de que precisa para alcançar o sucesso e viver bem. O pobre homem das cavernas da estória que acabei de lhe contar julgava que sua morada era escura e solitária, mas era ela que o protegia da chuva que o tornou doente; os animais os quais estava cansado de comer e caçar eram-lhe alimento garantido, o que lhe faltou em seus momentos de convalescença após a chuva; e as belas plantas que tanto invejou se tornaram seu algoz.
“Portanto, meu filho, não procure a felicidade naquilo que está à sua frente ou ao seu redor. Seja feliz com o que tem e use cada um dos seus bens, materiais ou não, para ser feliz. Veja em seus familiares, em seus verdadeiros amigos e em todos aqueles que lhe amam de verdade a caverna que lhe protegerá das tempestades da vida; no alimento que está sob sua mesa todos os dias veja a comida que lhe é garantida e que, ao invés de lhe causar enjôo, lhe deve ser motivo de gratidão, pois lhe mantém vivo e saudável, com forças para estudar e, futuramente, trabalhar para seu próprio sustento. Não inveje as ”flores” que você não possui, pois elas podem ser o caminho para sua perdição. Descubra a felicidade naquilo que você tem, pois certamente ela está lá.”

Pedro estava emocionado. As palavras de Demétrius lhe deram novo ânimo para aquele dia e para muitos outros que o seguiriam. O rapaz agradeceu ao seu professor e saiu para encontrar seus amigos na porta da escola. Ele já estava sentindo falta das conversas e risadas que davam juntos todas as tardes...